[Contexto] Wanderlust

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por Ana Balderramas

Viajar é um desejo praticamente universal. Alguém conhece alguma pessoa que não gosta de viajar, conhecer lugares novos, ver lindas paisagens e provar novos sabores? Eu não conheço. Acho que faz parte da nossa curiosidade sobre o mundo, é muito natural. Claro que algumas pessoas curtem sair mais da própria zona de conforto – arriscam lugares inóspitos, buscam culturas completamente distintas, adoram provar as comidas mais malucas e diferentonas. E outras preferem se manter ali mais no conhecido – aquela praia que ia na infância, por exemplo. Eu sou dessas que ama viajar e que se fosse possível conheceria o mundo todo. Mesmo tendo que enfrentar todo tipo de adversidade. Mas o que eu vim contar hoje foi sobre como viajar para fora do país fez eu despertar o olhar de turista num modo 100% alerta. Ou como eu aprendi a apreciar a minha própria cidade.

Ok, eu admito. Sempre subjulguei o nosso país em vários sentidos, incluindo o sentido turístico. Era do time Europa > Brasil (shame on me). E eu tive que sair do meu país, da minha cidade para enxergar a real beleza deles. Acho que é normal diminuirmos as coisas que nos são comuns, cotidianas. Se passamos todos os dias em frente a uma determinada paisagem, por exemplo, é difícil ter o mesmo deslumbramento do que alguém que a vê pela primeira vez. Ela sempre esteve ali, você também, é fácil passar batido. Eu não entendia quem falava que o Rio é uma cidade tão maravilhosa, tão incrível, tão uau, tão tudo. Eu não conseguia enxergar nada além de uma cidade suja, mal cuidada e com umas praias bonitinhas. SÓ. (Pasmem).

A primeira vez que eu saí do país foi em 2014, pros EUA, mais especificamente para St. Louis – Missouri. Era a formatura da minha ex-cunhada e viajei com a família do meu, então na época, namorado. Foi maravilhoso! Além de sentir um frio nunca dantes experimentado, amei a cidade – especificamente um bairro com casas muito muito antigas com arquiteturas MA-RA-VI-LHO-SAS – comi comidas ótimas, fui em várias lojas legais e foi muito divertido. E aí já era, o bichinho viajante já tinha me mordido e era um caminho sem volta. No ano seguinte eu fui para Orlando, na Flórida. Nunca tive o sonho de visitar a Disney quando era criança, eu nem sabia o que era direito, a única coisa que eu lembro era a propaganda que mostrava os resorts da Disney no início dos meus VHS. E eu só lembro que dizia: piscinas, campos de golfe e o brinquedinho do Dumbo. Ou seja, not impressed.

Foi outra experiência sensacional e inesquecível. Apesar de não saber muito bem o que tinha lá quando eu era criança, os muitos meses de pesquisa e preparação para a viagem me fizeram uma expert no que se tratava de parques da Flórida. Eu aprendi a planejar 100% sozinha uma viagem para fora do país. Acho que para algumas pessoas, como era para mim, isso parece uma coisa impossível de se fazer. A gente não conhece nada do lugar e são tantas opções para fazer. Tive que calcular quanto custaria a viagem, quanto levar de dinheiro, onde ficar, o que fazer, onde comer, etc. Apesar do planejamento praticamente virginiano, na hora H é tudo muito único e readaptar o roteiro é necessário e super válido. Enfim, a viagem para Orlando foi simplesmente maravilhosa.

Em 2016 decidi ir para a Europa e não conseguia companhia. Umas amigas falaram que era muito possível viajar sozinha e eu resolvi me jogar. Todo o processo de planejamento foi feito super corrido, pois eu decidi a viagem em cima da hora, e isso estava me deixando muito aflita. Porque uma coisa é viajar pra Orlando – uma cidade fake com parques temáticos que são ambientes super controlados e quase previsíveis. Outra coisa é ir pra várias cidades da Europa sem saber muito o que fazer e esperar. Mas engoli o desespero do planejamento meia boca e fui. Foi uma viagem muito diferente das anteriores: eu passei mal no segundo dia e tive que chamar um médico no meu hostel em Budapeste (perdendo um dia inteiro da viagem), andei MUITO a ponto de destroçar meus pés e joelhos, tive que aprender a aproveitar minha própria companhia e a vislumbrar lindas paisagens e lugares sem tagarelar com alguém. Fiz alguns amigos nos hostels, comi comidas diferentes e deliciosas, conheci lugares maravilhosos – tanto naturais quanto construções. Eu andava pelas cidades e tudo me chamava a atenção: um prédio diferente, uma montanha verdinha, as pessoas na rua. Meu olhar estava super atento querendo absorver tudo ao mesmo tempo!

Assim que eu voltei pro Brasil e voltei a trabalhar, lembro de um dia que meu ônibus passou em frente ao Theatro Municipal daqui do Rio e eu fiquei em choque. Parecia que eu estava vendo aquela construção magnífica pela primeira vez. E dali em diante era uma surpresa atrás da outra – o Centro do Rio tem cada prédio, praça, estátua, parque – lugares que eu nunca havia prestado muita atenção bem ali na minha cara. Mas era o olhar de turista que havia despertado e isso ficou muito óbvio pra mim.

Depois dessa experiência no Centro da Cidade, a cada dia eu descobria novas maravilhas da tal Cidade Maravilhosa. Aprendi a amar e apreciar o Rio sob um olhar diferente e me entristece realizar que eu precisei sair do Brasil pra que isso acontecesse. Até um morro que tem NA FRENTE DA MINHA CASA e eu nunca havia reparado, como pode isso? Todo dia é um novo dia para se descobrir a minha cidade e qualquer cidade que eu puder visitar e eu me pego volta e meia fotografando um prédio de 1902 ou o Copacabana Palace como se os estivesse vendo pela primeira vez.

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