[Contexto] Reaprender

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por Ana Balderramas

Dizem que nunca é tarde para começar algo novo, mas nem todo mundo consegue colocar isso em prática. Para tentar pela primeira vez alguma coisa diferente é preciso encarar de frente a possibilidade de falhar, e quando nos tornamos adultos admitir que falhamos é algo que demanda estômago. Quando somos crianças ou jovens adolescentes o que não nos falta é tempo, mas ao longo da vida vamos tendo cada vez menos tempo livre. Ouvimos que é importante para o desenvolvimento das crianças que as coloquemos em contato com atividades diversas: música, dança, luta, teatro, esportes variados, pintura, artesanato. Eu tive a sorte de estudar numa escola que sempre me ofereceu toda sorte de possibilidades desse tipo, além dos meus pais. Fui uma criança extremamente estimulada a experimentar uma variedade enorme de atividades artísticas, porém isso sempre fez parte da minha vivência, eu nunca conheci outra realidade. Isso acabou mascarando a real importância dessas coisas, não só para a minha formação, mas também como indivíduo social. Em determinado momento da minha vida adulta eu me dei conta que não estava mais envolvida em nada tão estimulante e que isso precisava mudar urgentemente. Precisava voltar às minhas raízes.

Na época da faculdade era muito complicado ter tempo livre, já que eu estudava, trabalhava, morava longe. Porém, no último período, estava com o tempo mais folgado e um amigo estava querendo voltar a fazer aulas de tecido acrobático e me chamou para fazer uma aula experimental com ele. Fui! E foi incrível! Já havia muitos anos que eu não fazia exercícios físicos regularmente e estava sedentária. As pessoas têm o péssimo hábito de associar magreza a saúde, o que não é necessariamente uma verdade e eu precisava voltar a me exercitar para me sentir mais saudável. As aulas eram incríveis, os professores e colegas de turma maravilhosos e a cada dia tinha um novo desafio. O tecido é uma das modalidades de acrobacias aéreas circenses. Exige muita força nos braços, abdômen, pernas, alongamento e CORAGEM! Não dá pra ter medo de altura e tem que ter coragem para se arriscar nos movimentos mais perigosos. Senti pela primeira vez em muito tempo o gostinho de experimentar algo novo pela primeira vez e relembrei o quão delicioso é tanto pra mente, quanto pro corpo. E também relembrei o gostinho amargo de falhar.

Eu não era a melhor da turma, nem a mais alongada, nem a mais forte. Eu tive que me acostumar com a dor bizarra em ca-da-par-te-do-meu-cor-po durante alguns bons meses. Doíam músculos que eu nem sabia que existiam. Eu aprendi que não tinha que me comparar com ninguém da turma, mas focar no que eu tinha de bom e me jogar de cabeça. Com o tempo fui me tornando mais forte, mais destemida e mais feliz. Mas eu continuava sem conseguir fazer algumas poses, quedas, sem conseguir zerar minha abertura de perna. Era uma luta diária para não deixar nada disso me desestimular. E tudo bem.

Depois do tecido eu já fiz aulas de balé, fiz um curso de decoração de biscoitos e estou aprendendo a tocar flauta. Comecei a gravar podcasts e agora estou escrevendo textos pra Kombo também. Aceitei o convite de decorar a festa de casamento de uma das minhas melhores amigas. Viajei pra Europa sozinha. Cada uma dessas coisas exige de mim diferentes habilidades, mas também me traz um monte de aprendizados e reforça sempre que eu posso falhar. Foi super importante aprender a aceitar que não é saudável querer ser a melhor em tudo que faço. Os próximos planos são de começar aulas de alemão e francês, aulas de pole dance e lettering com brush e aquarela. E os seus? 🙂

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