[Contexto] Planejamento Editorial

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por Vinícius Schiavini 

No meu último Contexto, falei das questões de diversidade e sagas na Marvel Comics.

Agora vamos falar um pouco de planejamento editorial.

É muito fácil dizer que ser editor é tranquilo em uma linha com edições soltas ou um ou dois títulos. Mas, já que falamos de Marvel e DC, as duas editoras que mais vendem comics pelo mundo, estamos falando de LINHAS. Em 2006, pra ter ideia, cada uma delas publicava cerca de 120 a 130 comics por mês. Isso diminuiu, é claro. Quando a DC fez os Novos 52, com 52 títulos da linha principal, diminuiu o todo pra cerca de 80. Ainda é muito, mas estamos falando de 50 revistas a menos por mês. O pacote de quem recebia tudo era absurdo: cerca de três caixas cheias.

Se faz necessário imaginar que este é um mercado que, em geral, está em constante queda. Depois de um pico ou subida, vai caindo lentamente. Ah, você quer saber o por que, certo? Bom, é porque atualmente o mercado está viciado, como já esteve nos anos 90.

(Atenção: se você é fã de quadrinhos, a referência aos anos 90 te fez tremer. Eu entendo.)

Nos anos 90, as sagas emendadas nas sagas, ou mesmo encavaladas, foram criadas não somente para interligar títulos, mas também pela necessidade de manter o pico ou mesmo uma constante de vendas. A Era do Apocalipse, saga dos X-Men, aconteceu enquanto a Saga do Clone, do Homem-Aranha, rolava. Aliás, a Saga do Clone durou uns três anos por conta disso, sempre com reviravoltas e reviravoltas das reviravoltas. Como resultado, o mercado quebrou.

Depois de aprenderem a lição e deixarem os roteiristas fazerem seu trabalho, agora estão cometendo os mesmos erros. Como consertar, então?

A palavra-chave aqui é confiança.

Não confiança nos roteiristas somente, mas nos personagens. Por muito tempo, as histórias do Homem-Aranha eram mais interessantes porque tinha o Peter, a Mary Jane, o Harry, o Flash… Joe Quesada diz que o casamento de Peter e Mary Jane o deixou chato, mas fato é que os roteiristas da época os isolaram, deixando-os sem amigos. Todas as situações eram com pessoas que não importavam e durariam pouco. Arcos inteiros envolviam Mary Jane tirando fotos, uma festa com algum cara grande idiota cantando a mesma Mary Jane.

Por que a Marvel está errando agora? Porque não dá tempo para seus roteiristas e seus personagens. Tudo bem que Dan Slott já durou tempo demais no Homem-Aranha, mas na maioria dos casos os roteiristas ficam pouquíssimo.

Vejamos um exemplo: Brian Bendis nos Vingadores. Eu sei, muita gente não gosta, e eu mesmo me irrito com alguns vícios, mas o roteirista ficou uns seis anos cuidando da equipe. Quer dizer, cuidando como dava.

Fazendo A Queda, surgiram os Novos Vingadores… que foram divididos depois de Guerra Civil. Surgiram os Poderosos Vingadores, que foram divididos depois de Reinado Sombrio. Surgiram os Vingadores Sombrios, destituídos depois de O Cerco. Ao fim disso, tínhamos três equipes de Vingadores, pelo menos, rodando por aí, sempre mudando de formação por conta das sagas. Já era chato quando trocava de formação porque, subitamente, o Gilgamesh ia embora, mas por conta de sagas é pior ainda. É como um time de futebol de solteiros que troca a formação a cada dois meses porque algum casa. Sim, todos decidiram casar no mesmo ano. Ao fim de O Cerco, veio a chamada Era Heroica, e uma nova equipe de Vingadores surgiu, gloriosa… e uma nova equipe de Novos Vingadores. E tudo isso foi destruído de novo com Vingadores versus X-Men.

Depois de deixarem (obrigado!) Jonathan Hickman escrever os Vingadores por três anos, eis que vieram as Guerras Secretas, trocando a formação e passando o bastão pra Mark Waid. Waid fez uma formação boa e sabe onde vai, mas adivinhe só: teve de trocar a formação por conta da Segunda Guerra Civil e começar tudo de novo.

DUAS Guerras Civis aconteceram. No nosso tempo, foram dez anos entre elas. Lá foram três (a cronologia do Homem-Aranha estabeleceu que aproximadamente quatro anos nossos equivalem a um deles + oito meses pós-Guerras Secretas). As Guerras MUNDIAIS tiveram vinte anos de distância, do fim de uma pro começo oficial de outra.

Agora, colocando na mesma editora, o Gavião Arqueiro. Houve aí a fase do Matt Fraction, na série Hawkeye. Ela só acabou porque Matt Fracion e David Aja assim planejaram. A série poderia ir para outros criadores, tudo bem, e eles poderiam continuar… mas, por vinte e duas edições, eles desenvolveram Clint, Kate, Grills (“é Gil”) e até o cachorro. Fica claro que ele é integrante dos Vingadores, mas foi legal desenvolver a parte, calmamente. O que a Marvel fez? Zerou a série e deu pro Jeff Lemire, que quis continuar de onde o Fraction parou. Podia ter só continuado, mas tudo bem.

Existe quem defenda que todos os comics deveriam ser divididos por temporadas: a série da Mulher-Hulk tem 12 edições escritas por uma pessoa, aí para, zera, e vem outra pessoa. O problema disso é que as editoras não estão interessadas em divulgar por aí os números dos volumes – enquanto podemos ver um Justice League of America número 6 (número ainda bem baixo!), muitos não sabem que esta é a QUINTA série com este nome.

E a Mulher-Hulk, que teve Savage She-Hulk, Sensational She-Hulk, She-Hulk (2005), She-Hulk (2014) e agora Hulk como títulos próprios? Cinco séries e só duas tiveram o mesmo nome!

Sabe o que falta?

Bom, eu já falei em confiança, né?

Em primeiro lugar, falta confiança em personagens e roteiristas a ponto de que os universos dos herois se desenvolvam. Eu adoro, nas séries, quando Flash e Arrow se encontram, mas porque na maior parte do tempo Flash e Arrow NÃO se encontram. Mas, nos quadrinhos, surge um monstro gigante em Metropolis e toda a Liga é chamada:

– E aí, Arqueiro, tudo bom?
– Tudo, Flash. Viu o jogo quarta?
– Nem vi.
– Eu gravei, te empresto amanhã, na próxima saga.
– Valeu.

Acaba a emoção deles se encontrando porque, além de muitos serem integrantes de equipes, todos se encontram sempre nas sagas. Os X-Men e os Guardiões da Galáxia, que geralmente ficavam afastados, só este ano se encontraram em Segunda Guerra Civil e Monstros à Solta. E olha que os X-Men são conhecidos por serem isolados, e os Guardiões deveriam estar no espaço.

O Batman tem as milhões de coisas pra resolver em Gotham mas, veja só, ele esteve na casa dos Kent umas quatro vezes nos últimos seis meses para investigar algo. Seja em sagas ou em arcos, mal dá pra saber como é a vida dos Kent na fazenda sem o Morcegão por lá comendo torta.

Como esses personagens vão se desenvolver para que possam ser interessantes ao público? Nenhum deles mais terá qualquer amigo fora da vida das capas? Esqueceram do valor de Perry White, Betty Brant, Hunter Zolomon?

Dando confiança aos personagens, se dá confiança aos roteiristas. A Saga da Fênix Negra só tem força porque foi desenvolvida por quatro anos. Chris Claremont ficou DEZESSETE anos cuidando de toda a Franquia X, e ninguém desenvolveu mais os mutantes que ele. Ele colocava uma ideia, um teaser, de algo que aconteceria anos depois. Cameron Hodge perdeu a cabeça para, anos depois, se revelar um incrível vilão tecnológico e diabólico (em vários sentidos). Que roteirista hoje consegue quatro anos no mesmo título, sem ser afetado por sagas? Fraction conseguir vinte e duas edições sossegado já é um milagre!

Nisto, a tríade se completa com confiança nos leitores. Não se pode subestimar os leitores, e aí que o planejamento editorial se faz mais presente.

Nenhum leitor confia se percebe que as séries são criadas e canceladas ao vento. Algumas param sem qualquer explicação (alguém viu a mensal do Gatuno por aí nos últimos dois meses?), e aí o leitor não sabe o que aconteceu.

Criar uma linha de títulos é a coisa mais fácil do mundo: arranjar quem faça, criar os títulos e soltar um monte de gibis. Pra tentar vender muito no susto, cria uma saga atrás da outra, juntando dois, três, quatro, até juntar todos os títulos. Cancela o que der errado em seis meses, zera e relança.

Que tal, ao invés disso, ir lançando títulos aos poucos, com premissas já mais determinadas? Não lançar um título por conta de uma saga, na esperança de um personagem vingar, mas sim até mesmo testando em uma mini ou, veja só, em um título aberto, que permita experimentações. Daí já dá pra ver o que ajustar e o que deixar pra mensal, e permitir que os roteiros trabalhem os personagens com calma. Comunicar quando é o início e quando é o fim de um arco, ao mesmo tempo que trabalha a constante dos personagens, aprimorando e mostrando evolução. Planeje adiante. BEM adiante. Estou falando de dois anos aí, no mínimo, para que se saiba quanto tempo tem pra desenvolver tudo, para que as respostas diante de uma saga ou evento sejam apropriadas.

E aí vem o evento, e o evento é um EVENTO, porque as pessoas lendo vão querer saber como os títulos vão interagir, como os personagens trabalharão juntos e tudo mais. EVENTO deixa de ser EVENTO quando acontece o tempo todo. Quando tudo é evento, nada é.

O que aconteceu com a Marvel recentemente e com a DC em tempos atrás foi um lógico resultado de não confiar nem nos roteiristas, nem nos personagens e, principalmente, nos leitores. E leitores sentem.

Talvez seja hora de prestar atenção nisto e editar direito.

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