[Contexto] Nunca Mais

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por Ronaldo Silva

(uma mistura de azar, Edgar Allan Poe e Fernando Pessoa)

 

Numa manhã enfadonha, quando eu acordava, lento e triste,
Amaldiçoando até mesmo os meus ancestrais,
E já quase me deprimia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“O maldito vizinho do 110”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio junho,
E mais contas chegavam, despertando em mim sentimentos desiguais.
Como eu queria, à noite, ler meus livros e assistir Netflix,
Para esquecer (em vão!) a desgraça, de envergonhar até mesmo as hostes celestiais –
Dia maldito para as hostes celestiais,

Sem saudade aqui jamais!

Como, a receber na porta a visita indesejada
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
“É o maldito vizinho pedindo favores aqui em meus umbrais;
Um filho de chocadeira pede entrada em meus umbrais.

É só isto, e nada mais”.

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
“Ô saco!”, eu disse, “ou não tenho dinheiro”;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi…” E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Era uma encomenda e nada mais.

O entregador fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a encomenda era minha, a dúvida  porém maldita,
E seguiu-se um reles bom dia para depois o “por favor, assinais.”
Eu retruquei: “ bom dia para quem?”

Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse algo estranho dentro do pacote.
“Por certo”, disse eu, “a bosta do correio fez merda”.
Vamos ver o que está no pacote, e o que são estes sinais.”
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

“Era  minha encomenda quebrada, e nada mais.”

Abri então a vidraça, e joguei fora aquela desgraça,
Fui me vestir para sair e espairecer, como as pessoas sempre fizerem desde os tempos ancestrais.
O porteiro não fez nenhum cumprimento, não parei nem um momento,
Mas já fulo da vida, meu ódio brotava como água dos mananciais.
Lembrando do que acontecera em meus umbrais,

Eu disse “dane-se”, e nada mais.

Entrei no mercado e a promoção do dia fez sorrir minha amargura,
Com o solene desconto de seus ares rituais.
“Tem algo estranho aqui”, disse eu, “estranho e errado”,
Ó fila oriunda lá das trevas infernais!
Dize-me por que não levais toda essa gente para as trevas infernais.”

Disse a atendente do caixa, “Nunca mais”.

Pasmei de ouvir esta atendente falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma atendente tenha se recusado a trabalhar mais,
“Será que ela também teve problemas em seus umbrais?”,

Deve ter sido isso e nada mais.

Mas a fila andou, a atendente foi trocada, mas a luz do caixa foi acesa.
Mas que azar, como se não bastasse o incômodo matutino para que a minha alma ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, “puta que o pariu, por que não andais?”
Todos – todos já se foram. Amanhã também te vais”.

E uma voz na minha cabeça disse: “Nunca mais”.

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
“Por certo”, disse eu, “são estas vozes usuais,
Estou ficando louco da cabeça,
E seguiu até que vislumbrei algo que fez com que minha alma se quebrasse em ais,
E o bordão de desesperança de seu canto cheio de ais

Era este “Nunca mais”.

A senhora que estava na minha frente piorou a minha amargura,
Tirou um saco de moedas, moedas que não acabavam mais,
E, enterrado na agonia, pensei de muita maneira
Que pretendia esta senhora infame dos maus tempos ancestrais,
Para pagar quinhentos reais em compras, com moedas que não acabavam mais,

E a voz na minha cabeça repetiu: “Nunca mais”.

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
O azar na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a minha vida amaldiçoando,
Quando percebi que todas as moedas eram iguais,
Moedas de UM CENTAVO que não acabavam mais,

Esta lazarenta juntará nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
“Maldito!”, a mim disse, “deu-te Deus, por anjos concedeu-te
Ficasse na cama; valeu-te. Larga tudo, esquece, não mais te afetais,
Volta para casa e livra-te desses teus ais!”

Disse a voz, “Nunca mais”.

“Que bosta!”, disse eu, “que bosta – eu só queria comprar uns legumes!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe com esta sacola dos tempos feudais,
A este luto e este degredo, a esta loja e este segredo,
Por que não pagais no débito, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

Disse a voz, “Nunca mais”.

“Que bosta!”, disse eu, “que bosta!”
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Vislumbrarei alguma sorte entre hostes celestiais,
E livrar-me-ei desta situação que me fritais,

Disse a voz, “Nunca mais”.

“Que esse grito nos aparte, azar!”, eu disse. “Parte!
Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixeis moedas para emputecer outro alguém!
Meu tormento me reste! Tira-te de meus pensamentos gerais!
Tira-me da fila e volta para ler a sinopse das novelas nos jornais!”

Disse a voz, “Nunca mais”.

E a senhora, na fila maldita, está ainda, está ainda
Tirou agora um camalhaço de contas do mês para pagar.
E um segundo saco de moedas com o qual nem um demônio sonha,
E a luz da minha esperança se esvai,

Pois desta fila, minha almta libertar-se-á… nunca mais!

 

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