[Contexto] Contratar o Bruno foi uma BOA?

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por Francisco Geovane

A nossa sociedade encara a prisão como um “tapete gigante”, onde jogamos tudo o que é sujo embaixo e lá convenientemente esquecemos.

Apesar do índice de reincidência ainda ser um problema, o preconceito é grande com quem paga pelo crime que cometeu e é colocado de volta ao convívio da sociedade.

E porque desse assunto agora, você se pergunta. Por muita defecagem pela boca está sendo dada nas XOXOMIDIA após a revelação do retorno do goleiro Bruno ao futebol.

Para quem ficou em coma nos últimos anos, um resumex:

Em 2010, Bruno, que era goleiro do Flamengo, foi declarado suspeito do desaparecimento da ex-amante Eliza Samudio, que lutava na justiça para o reconhecimento de paternidade para seu filho. O último lugar onde Eliza foi vista foi justamente no sítio do jogador em Esmeraldas, interior de Minas Gerais.

Eliza denunciou o goleiro por tê-la forçado a tomar remédios abortivos após revelar a gravidez ao goleiro, um ano antes.

Bruno vinha tendo uma excepcional carreira no Flamengo, sendo até cogitada uma provável presença dele no elenco que jogaria a Copa do Mundo em 2014 no Brasil.

Em entrevistas a rádio e TV na época, pedia para que Eliza aparecesse e acabasse com todo esse caso.

Tudo veio a baixo no dia 6 de julho de 2010. Um primo do goleiro, menor de idade, foi encontrado na residência de Bruno na Barra da Tijuca. O jovem afirmou que, na noite do desaparecimento, deu uma coronhada em Eliza. Desacordada, foi levada para Minas Gerais, e lá foi brutalmente esquartejada por traficantes e dada a cachorros rottweiler. Os ossos da modelo teriam sido concretados.

O depoimento do garoto caiu como uma bomba. Apesar de, até hoje, a versão não ter sido confirmada pela PF nas investigações, existiam fortes indícios que Eliza realmente morreu no sítio.

Bruno foi indiciado, preso preventivamente em 2010 e, em 2013, foi condenado a 19 anos em regime fechado (homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver) e 3 anos e 3 meses em regime aberto (sequestro e cárcere privado).

Bruno ainda tinha esperança de voltar a jogar futebol após sair da prisão. Em entrevista, em 2016, previa que em 2020 poderia voltar aos gramados (em 2020 o 1/6 da pena seria atingido, e ele poderia mudar para o regime semiaberto, tendo oportunidade de trabalhar).

Entretanto, um fato novo deu novos capítulos a história. No dia 24 de fevereiro deste ano, o STF (Supremo Tribunal Federal), por força de um habeas corpus, libertou Bruno.

Assim que saiu da prisão, começou a especulação do novo clube do goleiro. Segundo a imprensinha, Atlético-MG, Flamengo, Chapecoense, entre outros, teriam interesse, mas nada confirmado.

Até que no dia 10 de março, o Boa Esporte, de Minas Gerais, anunciou a contratação de Bruno. A notícia não foi bem recebida pelos torcedores do clube e recebeu manifestações contrárias de todo o país.

O Boa Esporte, aliás, já tem uma polêmica na sua história: fundado em 1947 na cidade de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, profissionalizou-se apenas em 1998.

Em 2011, após acordo com a Prefeitura de Varginha (também conhecida no Ocidente como a Cidade do ET), o clube – que se chamava Ituiutaba – mudou de cidade e de nome, lembrando duas origens.

O nome BOA vem de Boa Vontade Esporte Clube, o nome inaugural do time, nos anos 40.

Mudar a sede de cidade não é algo que acontece sempre (apesar de isso acontecer em certos momentos em cidades do interior). A questão é que o antigo Ituiutaba subiu para a Série B de 2011, fazendo com que Varginha herdasse um time de Segunda Divisão nacional.

Atualmente, o Boa está no Módulo II  (algo como uma segunda divisão) do Campeonato Mineiro. Nacionalmente, no entanto, está de volta a Série B com status de atual campeão da Série C – batendo o Guarani na decisão.

Talvez remetendo ao seu nome original, o clube mineiro teve boa vontade com Bruno, acolhendo o goleiro para uma nova chance no futebol. SERÁ MESMO?

Tá na cara que a diretoria do Boa Esporte quis pegar carona na onda do Bruno, para dar visibilidade ao clube, apesar de ser negado veementemente por ambos (Bruno e diretoria). Só que o tiro parece ter saído pela culatra: desde o anúncio da contratação, o clube perdeu quatro patrocinadores, além da fornecedora de seu material esportivo.

O site oficial do clube foi até hackeado, tendo informações sobre partidas trocadas por dados sobre feminicídio. Mulheres da cidade protestaram, e até a Prefeitura de Varginha – que mantém convênio com o clube – chegou a pedir esclarecimentos e até citou um possível cancelamento da concessão, que deixaria o Boa “sem teto”.

Até maio – quando começa a Série B do Brasileirão – vamos saber se isso realmente foi uma BOA ideia (com o perdão do trocadilho). Afinal, o clube mineiro vai sofrer represália das torcidas em todos os cantos do país por onde jogar. Será que vão aguentar a pressão?

Eu, sinceramente, até acharia plausível um retorno do goleiro, mas somente se ele tivesse pelo menos CUMPRIDO sua pena, o que não é o caso. Obviamente o estigma de assassino o perseguiria por toda a vida, mas pelo menos sanada sua dívida com o Estado, ele poderia tentar uma redenção, mesmo que não pareça ser o objetivo dele – ele mal toca no assunto e critica quem fala sobre o caso.

E você? Daria chance ao Bruno no seu clube?

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